Quando o Mercado Imobiliário entrará no Século XXI?

Quando o Mercado Imobiliário entrará no Século XXI?

No artigo publicado na 9ª Edição da Revista Sacada – disponível também aqui, no link “A Nova Sociedade, os Millennials e os Produtos Imobiliários” – abordei o processo de definição e desenvolvimento de produtos imobiliários para o consumidor atual. Tratei, então, dos millennials, que estão socialmente conectados vinte e quatro horas por dia e ilustrei uma grande defasagem entre a era digital e o real mundo do setor imobiliário brasileiro.

Nesse novo artigo, pretendo seguir com provocações acerca dessa grande diferença entre as realidades tecnológicas do século XXI e o modelo ainda arcaico de mercado que vemos hoje.

Vou, então, separar o assunto em três vieses a serem discutidos:

1.    A concepção e o desenvolvimento do produto imobiliário
2.    O licenciamento e os registros da incorporação e dos imóveis 
3.    A comercialização dos imóveis e o atendimento ao cliente

1.     A concepção e o desenvolvimento do produto imobiliário 

O produto imobiliário, em si, precisa passar por transformações para atender à nova sociedade conectada e dinâmica que vem se apresentando. Pensar e repensar velhos conceitos de moradia deve fazer parte da agenda dos incorporadores daqui para frente e cada vez com mais força.

Os hábitos de todos os cidadãos que vivem nas cidades foram mudando ao longo do tempo e o mercado imobiliário até que se adaptou um pouco, mas antes dessa avalanche de tecnologia acontecer. Hoje, no entanto, as mudanças estão ocorrendo tão rápido que nosso mercado não está mais conseguindo acompanhar.

Diante dessa constatação, só há uma direção: repensar toda a “fórmula”, e ela nasce na concepção do produto.

Não é mais viável que os produtos imobiliários sejam pensados e desenvolvidos pelos incorporadores longe do contato com seus possíveis consumidores, e sejam apenas apresentados a estes lá na frente, no momento do lançamento, quando é tarde demais. Assim, incluir a cocriação no ciclo imobiliário deve ser a primeira mudança do desenvolvimento dos produtos daqui para frente. 

Outra reflexão é que ter um imóvel não é mais prioridade para grande parte dos novos consumidores, todos precisam morar, mas isso não significa mais querer ser proprietário de um imóvel. Isso muito se deve ao pensamento de liberdade das novas gerações, algo que os produtos imobiliários não possibilitam muito da forma como vem sendo concebidos até aqui. 
É preciso, então, criar produtos que se adaptem mais facilmente à vida das pessoas, pois não é mais inteligente e nem sustentável ter que se desfazer de um imóvel sempre que as necessidades familiares mudam.

Por último, é prioritário que aqui no Brasil, finalmente, ocorra a industrialização das construções e dos canteiros para que o ciclo de uma obra seja mais rápido, uma vez que muitos empreendimentos quando são entregues já se encontram obsoletos dado o prazo tão longo de execução. E, também, junto com essa industrialização, se dê a preparação das edificações para o uso das tecnologias de inteligência e automação.

2.     O licenciamento e os registros da incorporação e dos imóveis  

Leis antigas e ultrapassadas, trâmites burocráticos de aprovação de projetos e registros inflexíveis também estão desajustados à necessidade dos dias atuais. Todos estes pontos, que contribuem para que o ciclo de desenvolvimento dos produtos imobiliários seja extremamente longo e para a impossibilidade de ajustes nos imóveis conforme a nova realidade de seus proprietários, dificultam a renovação do mercado.

Alguns poucos empresários do setor, de atuação mais disruptiva, tem conseguido trazer alguma inovação, apesar desse cenário, através de caminhos alternativos. Entretanto, sem a adequada revisão de leis e normas obsoletas, será difícil que nosso mercado imobiliário siga no caminho saudável da inteligência e sustentabilidade que o futuro (e até o presente já) nos impõe. Neste sentido, é fundamental que incorporadores, construtores, arquitetos e entidades de classe envolvidas no segmento atuem para isto.

Rever o controle exagerado do potencial construtivo nas regiões centrais, que limitam o adensamento de áreas que já são providas de infraestrutura e permitiriam a otimização das estruturas de mobilidade urbana, principalmente nas grandes cidades; revisar leis urbanísticas que proíbem o uso misto e o adensamento em bairros ainda exclusivamente residenciais e centrais, que hoje estão subutilizados e ociosos; permitir o desmembramento de grandes propriedades horizontais e verticais em múltiplos imóveis com áreas menores, tanto com a aprovação e liberação de alvarás quanto com a possibilidade de registro cartorário; concentrar todas as informações acerca da legitimidade, riscos, ônus e propriedade em um único documento ou fonte, acabando com a obrigatoriedade de apresentação de tantas certidões diferentes e autenticações; são alguns pontos a serem pensados para possibilitar que nosso mercado imobiliário inicie, de fato, sua jornada pelo século XXI.

3.     A comercialização dos imóveis e o atendimento ao cliente

Sem dúvidas, a defasagem do mercado imobiliário em relação às mudanças do novo consumidor e da sociedade passa também pelo modelo de comercialização e de atendimento ao cliente praticados, que são verdadeiros “calcanhares de Aquiles” do setor.

A mentalidade de que o cliente busca apenas preço, não compara qualidade e muito menos, não leva em consideração sua experiência durante a jornada de compra precisa mudar entre os profissionais que atuam no mercado. Via de regra, os preços vistos entre os concorrentes diretos em qualquer região são muito parecidos, logo, justamente a qualidade do produto e a experiência do cliente que serão determinantes para a definição pela compra.

É bem usual encontrar clientes, em vias de adquirir produtos que tem o discurso da inovação, sendo atendidos por profissionais claramente despreparados, que não demonstram vínculo e nem comprometimento com a transação e com o produto que estão vendendo, inseridos em um processo arcaico de venda e compra, com papéis e mais papéis e demora nas aprovações de propostas e de crédito. Não bastasse, após a compra, ainda são submetidos a um formato de atendimento ao cliente antiquado, no qual e-mail e telefone são os canais mais utilizados de comunicação e a demora e impessoalidade dos contatos são uma constante, enquanto esses mesmos clientes estão acostumados a falar com o banco, pedir comida e transporte por aplicativos cada vez mais inteligentes, a ouvir músicas e assistir conteúdos em diversas plataformas online personalizadas por ele. Ou seja, o descontentamento dos clientes com nosso atual modelo de mercado não só é esperado, como também compreensível. 

Dados apresentados em uma palestra do Facebook, em setembro de 2018, mostram que 63% dos consumidores do mundo todo estão mais propensos a se comunicar com negócios via mensagem de texto ao invés de fazê-lo telefone ou e-mail e, no Brasil, 85% dos consumidores disseram já ter se comunicado com alguma empresa via mensagem. 

Em resumo, o atual momento coloca em xeque todo o sistema e faz disparar na preferência do consumidor as (ainda poucas) empresas que trazem alguma inovação real, como a desburocratização e a eficiência do processo de aquisição ou locação, o preparo das equipes profissionais e o discurso personalizado para cada um dos clientes, preocupado com sua satisfação e retenção do início ao fim, além da inteligência artificial como parte do processo de relacionamento tanto para a compra, quanto para o acompanhamento do cliente até a entrega do imóvel.

Face a todas essas evidências, faz-se crer inadiável um completo repensar dos rumos do mercado imobiliário brasileiro, desde a produção, passando pela legalização até a comercialização, para que este tenha reais condições de acompanhar os avanços tecnológicos e sociais que o século XXI traz, pois o cliente espera que todas as esferas de consumo estejam no mesmo patamar de desenvolvimento, caso contrário, sua frustação é inevitável e a decadência do setor também.

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